Nossas explicações pós-fato…

Amanhã faz uma semana da eliminação da Seleção Brasileira de Futebol da Copa do Mundo do Qatar. Desde o apito indicando o final da partida começamos a ler, ou escutar em cada local que paramos, uma enxurrada de críticas, especialmente ao agora ex-técnico do time. Embora eu tenha também minhas considerações sobre o que aconteceu, quero usar a oportunidade para falar um pouco sobre o que se conhece como explicações pós-fato na Psicologia.

Bom, se pegarmos o fato, nós todos que analisamos a situação não possuímos as informações ao detalhe do contexto em que os jogadores e o técnico estavam inseridos. Sem saber das informações, fazemos alusões e construímos uma explicação em nossa cabeça baseada em uma série de fragmentos guardados em nossa memória ou, até mesmo, sentimentos que experimentados durante a partida. Esse processo é muito comum e geralmente nos faz julgar e concluir sobre aspectos que fogem da realidade.

Veja um outro exemplo, por diversas situações eu ouvi pessoas entrarem em um determinado ambiente e dizerem: “nossa, esse ambiente está carregado”. Aqui, estas pessoas estão querendo dizer que o ambiente está cheio de uma espécie de carga negativa. De novo, é o nosso cérebro montando uma explicação para uma reação inconsciente. Ao entrar nesses ambientes essas pessoas recebem as imagens dos rostos com expressões de preocupação dos indivíduos que se encontram lá. Essas imagens não são interpretadas da forma correta e passam a ser utilizadas pelo cérebro como algo que precisa ser explicado de algum jeito. Para essas pessoas, a maneira de explicar os rostos preocupados é dizendo que o ambiente está carregado.

Existem uma infinidade de exemplos do nosso cérebro agindo de forma inconsciente em relação a suas crenças para gerar explicações. Quando escutamos um barulho estranho e estamos sozinhos em nossas casas, racionalizamos que há um “espírito”, quando achamos que vemos uma imagem que cremos seja uma “alguém que veio do além”, etc. Essa racionalização vem muitas vezes do nosso contexto, da nossa criação, formação religiosa ou desejos guardados em algum lugar do cérebro. Segundo Michael Gazzaniga, isso normalmente é feito pelo lado esquerdo do cérebro, o qual tenta racionalizar o que está acontecendo em algo que faça sentido.

Mas não para aí, para complicar a situação, nossas memórias não são exatamente fieis em relação ao que achamos que conhecemos. A cada vez que recorremos à nossa memória para lembrar de algo, reinterpretamos fragmentos de imagens, conversas, textos, etc. Ou seja, a cada vez que lembramos de algo, a história muda. Muda de tal forma que, em muitas vezes, vamos reforçando nossas crenças e convicções. No final, a explicação pós-fato acaba por reforçar aquilo que carregamos de contexto, de visão de mundo ou história de vida.

Então é assim, na próxima vez que você ver uma pessoa pela primeira vez, procure duvidar daquela primeira impressão. Procure ter mais detalhes dela, de sua personalidade, de sua história. Evite aquelas situações de: “não fui com a cara desse fulano aí”. O Tite virou as costas e foi embora, foi feio, mas o que será que aconteceu para ele fazer isso? De repente um dia a gente saiba e mude nossa explicação do que aconteceu na sexta passada.